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Manual de sobrevivência na CPI
26/04/12 - 16:00 
Por: Arnaldo Jabor

 

Há oito anos, escrevi um artigo sobre o "Se..." de políticos sob suspeita, em vaga homenagem ao poema celebre de Rudyard Kipling de 1910. Estávamos às vésperas de uma CPI. Agora estamos diante de outra CPI, inédita, autofágica, uma espécie de banho de descarrego de todos contra todos. Creio que tem sido tanta a vergonha dos escândalos, tão forte a repulsa da opinião pública que, estranhamente, os congressistas resolveram se purgar em público, em um ritual coletivo de "purificação". Estão arrependidos, porque cederam a um impulso inconsciente e vão deparar com mil crimes insuspeitados sobre a voraz corrupção que atinge todos os empreendimentos privados com grana pública. Todos. Por isso, repito e atualizo esse texto para hoje, pois mudaram as circunstâncias, mas os delitos e as negações continuam iguais. Veremos um replay, mas creio que essa CPI é bem "contemporânea" e atende a uma demanda da vida atual: a democracia, a imprensa livre, o crescimento econômico e cultural criaram uma nova "ética de mercado", rejeitando a mixaria de antigas ladroagens feudais.

 

O que devem fazer os acusados para escapar? Sigam o manual de instruções do bom corrupto: "Se puderes manter a cabeça erguida, quando todos te acusarem, chamando-te de ‘corrupto‘, por te terem pegado com a mão na cumbuca, se mantiveres a aparente dignidade, com sorrisos de mofa diante de provas inabaláveis do teu crime e disseres com voz serena: ‘Tudo é uma infâmia de meus inimigos políticos’ ou ‘Não me lembro se esta loura de coxas douradas foi minha secretária ou não...‘, se disseres isso sem suar, sem desmanchar a gravata, com roupas impecáveis que não revelem o esterco que te vai na alma, se fores capaz de chorar diante da CPI, ostentando arrependimento profundo, usando filhos, pais, pátria, tudo para se livrar... e, sobretudo, se puderes construir uma ideologia que te justifique e absolva, de modo que os atos mais sujos ganhem uma luz de beleza política, se puderes dourar tua pílula, colorir teus crimes, musicar teus grunhidos, de modo que possas mentir com fé, trair sem remorsos e roubar com júbilo, se puderes convencer a ti mesmo de que Cristo (também injustiçado) compreende teus pecados e te perdoa, se puderes crer que tens direito de roubar o povo para vingar uma infância pobre, ou porque tua mãe foi lavadeira e prostituta para pagar teu diploma fajuto de business administration, se acreditares mesmo que tens direito de trair ou tascar granas ou inventar precatórios ou superfaturar remédios de criancinhas com câncer porque também sofreste como menino comido por garotão mais forte no porão da tua infância, dor e delícia sempre negadas por teu machismo compensatório, se acreditares que a mutreta, a maracutaia, a ‘mão grande‘, o ‘me dá o meu aí’ tem algo de transgressão pós-moderna, algo de Robin Hood para si mesmo, como dizes, na piada ‘há há... eu roubo dos ricos para o pobre aqui...‘, ou se, convocando uma ideologia conservadora, pensas que a roubalheira sempre houve na humanidade, ou seja, que metes a mão por uma poética saudade do passado, como se ama uma antiguidade, um vaso Ming ou um abajur art decô ou se, em homenagem ao populismo tradicional, plagiares antigos slogans ‘ademaristas’ e, pensando em teus viadutos superorçados, disseres baixo a ti mesmo: ‘Roubo, mas faço...’ enquanto enfias a língua na orelha da lobista gostosa ao teu lado no ‘Piantella’ de porre e feliz ou se justificares tua fortuna escrota por motivos mais científicos, invocando Darwin ou Spencer, declarando que o animal humano sobrevive pela agressão e competição (‘survival for the fittest‘) e que, portanto, assim como o chimpanzé ataca o mico-leão e o jacaré come o veado, também cumpres a ordem natural das coisas: ‘Roubo, sim, pois isso está inscrito no genoma dos hominídeos...’ ou mesmo, se mais filosófico, lamentares melancolicamente que ‘acabou o tempo das utopias...’ ou ‘a vida é a ilusão dos sentidos’ e, portanto, ‘roubo, sim, e caguei...’ ou ainda, se num gesto de superioridade literária, invocando ladrões poéticos como Villon ou Jean Genet, assumires tua fisionomia de rato ou de preá, tua carinha embochechada por anos de uisquinhos, licores, pudins, babas de moça, se puderes erguer o queixo diante do espelho ou diante de amigos como fez o grande (raro gesto) Arruda e o inesquecível PC que cunhou a frase eterna ‘10% é pra garçom...‘, se te orgulhares de tua esperteza e, de cuecas diante do espelho, enquanto a amante se lava no banheiro, berrares em júbilo: ‘Eta garoto bão, espertalhaço!‘, ou seja, se diante de si e do mundo, puderes enfunar a barrigona cheia de merda e dizer: ‘Sou ladrão, sim, mas quem não é?’ ou ‘podem me acusar, mas quem tem este Renoir?‘, se puderes cultivar todos esses méritos, se puderes justificar com serenidade tua vida de estelionatos, pequenos furtos, orelhas de traficantes ou até mesmo de esquartejamentos com motosserras (‘Esquartejo, sim, mas por bons motivos...‘), se puderes fazer tudo isso, confiante nos teus advogados sempre alertas como escoteiros na pilhagem nacional, confiante na absoluta conivência de rituais jurídicos que sempre te livrarão da cadeia enquanto os pardos pobres apodrecem nas celas com aids e ‘quentinhas’ superfaturadas pelo marido da perua louca, e se, além da confiança na cega Justiça, no manto negro dos desembargadores que sempre te acolherão, se, além deste remanso, deste consolo que te encoraja, roubares mesmo, no duro, por amor, por paixão, por desejo sexual, pela bruta tesão de acumular o máximo de dólares para nada, pela fome de lanchas, jatos, putas, coberturas, Miami, Paris e se, com fé e coragem, reconheceres esse prazer com orgulho e sem remorsos, então, eu te direi, com certeza, que vais herdar a Terra toda com todos os dinheiros públicos dentro e, mais que isso, eu te direi que serás, sim, impune para sempre, um extraordinário exemplo do canalha brasileiro, meu filho!!..."

 

 

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