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Após recordes de desmatamento e queimadas, Bolsonaro diz no G20 que sofre 'ataques injustificados' de 'nações menos competitivas e menos sustentáveis'

Por Redação em 22/11/2020 às 16:08:32

Presidente ressaltou que Brasil dedica uma pequena √°rea do território para agricultura e que tem grande √°rea de vegeta√ß√£o ainda preservada. Especialistas ouvidos pelo G1 dizem que exemplos citados pelo presidente n√£o credenciam o país como exemplo de preserva√ß√£o. O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste domingo (22), em discurso no segundo dia de reuni√£o de cúpula do G20, que seu governo vai "continuar protegendo" a Amazônia, o Pantanal e todos os outros biomas do país.

A declara√ß√£o ocorre em meio à divulga√ß√£o de dados que apontam para aumento do desmatamento da floresta e para número recorde de queimadas no Pantanal neste ano. A acelera√ß√£o da destrui√ß√£o dos dois biomas gerou críticas ao governo dentro e fora do país.

Em seu discurso, Bolsonaro citou dados para afirmar que se baseia na "realidade dos fatos" e n√£o em "narrativas", mas especialistas ouvidos pelo G1 contestam as afirma√ß√Ķes do presidente.

"O hino nacional de meu país diz que o Brasil é gigante pela própria natureza. Estejam certos de que nada mudar√° isso. Vamos continuar protegendo nossa Amazônia, nosso Pantanal e todos os nossos biomas", afirmou Bolsonaro.

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O discurso do presidente n√£o foi transmitido pelo G20, mas sim divulgado pela Pal√°cio do Planalto. A reuni√£o do grupo, que reúne as 20 maiores economias do mundo, est√° sendo presidida pela Ar√°bia Saudita e ocorre neste ano de maneira virtual, devido à pandemia do novo coronavírus (leia a íntegra do discurso ao final desta reportagem).

No s√°bado (21), primeiro dia de reuni√£o do G20, Bolsonaro também discursou. O presidente abordou quest√Ķes comerciais e a vacina para a Covid-19, mas também falou sobre as manifesta√ß√Ķes antirracismo que vêm sendo registradas no país depois do espancamento e morte de um cidad√£o negro no Rio Grande do Sul.

Críticas à política ambiental

A política ambiental do governo Bolsonaro e os números que apontam para aumento do desmatamento e das queimadas no país têm gerado press√Ķes internacionais e amea√ßas de países de boicote a produtos brasileiros. Também têm dificultado o andamento do acordo de livre comércio entre Mercosul e Uni√£o Europeia.

O governo brasileiro vem apontando interesses comerciais nas críticas e que elas têm objetivo de prejudicar produtos nacionais, especialmente os ligados ao agronegócio.

No discurso deste domingo, Bolsonaro voltou a atacar os críticos. Afirmou que o Brasil, com sua produ√ß√£o agrícola e pecu√°ria, alimenta "quase um bilh√£o e meio de pessoas" enquanto mantém mais de 60% do território preservado, e que os ataques ao país partem de "na√ß√Ķes menos competitivas" no agronegócio.

"Ressalto que essa verdadeira revolu√ß√£o agrícola no Brasil foi realizada utilizando apenas 8% de nossas terras. Por isso, mais de 60% de nosso território ainda se encontra preservado com vegeta√ß√£o nativa. Tenho orgulho de apresentar esses números e reafirmar que trabalharemos sempre para manter esse elevado nível de preserva√ß√£o, bem como para repelir ataques injustificados proferidos por na√ß√Ķes menos competitivas e menos sustent√°veis", afirmou.

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O engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da ONG Mapbiomas, diz que na verdade o Brasil tem 67% do seu território com vegeta√ß√£o nativa, considerando o que est√° degradado e que est√° regenerando.

"A gente estima que, desse total [de vegeta√ß√£o nativa] que existe no Brasil, pelo menos um ter√ßo j√° foi desmatado alguma vez ou j√° foi fortemente degradado. Ent√£o o número correto seria mais ou menos alguma coisa como 45%, 50%" - Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas

"[Dizer que] se encontra preservado n√£o é uma frase correta - se encontra coberto com vegeta√ß√£o nativa. Parte j√° foi desmatada e parte j√° foi muito degradada - com fogo, explora√ß√£o ilegal", conta Tasso. Como o G1 mostrou na série Desafio Natureza, mesmo √°reas que deveriam contam com preserva√ß√£o garantida em demarca√ß√£o sofrem com desmatamento.

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O especialista em gest√£o ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Raoni Raj√£o também rebate a afirma√ß√£o.

"É errado dizer que mais de 60% do Brasil est√° preservado. Mais de 60% do Brasil est√° com vegeta√ß√£o nativa. E isso inclui, por exemplo, os pampas, onde você tem pecu√°ria. Isso inclui os campos gerais onde você tem pecu√°ria. Inclui também, por exemplo, todas as √°reas florestais onde tem extrativismo", diz Raj√£o.

"Quando uma √°rea é de preserva√ß√£o, voltada para a preserva√ß√£o integral, isso significa que ela n√£o pode ser explorada (para fins econômicos). E essas √°reas elas s√£o muito pouco do território nacional".

As unidades de conserva√ß√£o de prote√ß√£o ambiental integral alcan√ßam 9,9% do território nacional, segundo um levantamento da UFMG, com dados ICMBio, Incra, Funai, SFB e MMA.

√Ārea usada pela agropecu√°ria

Sobre a fala do Bolso de que a revolu√ß√£o agrícola no Brasil "foi realizada utilizando apenas 8% de nossas terras", o professor Raoni Raj√£o diz que o dado é "distorcido".

"De fato, por volta de 8% a 10% do território nacional é voltado para culturas agrícolas, soja, milho, e etc. Mas você precisa somar mais uns 20% das √°reas voltadas para a pecu√°ria. Ent√£o falar que foi 8% que deu independência alimentar para o Brasil é errado. E os outros 20% da pecu√°ria?", questiona Raj√£o.

Mirante mostra a Floresta Nacional do Tapajós e o Rio Tapajós ao fundo

Marcelo Brandt/G1/Arquivo

'Firme compromisso'

Em outro ponto do discurso, Bolsonaro disse que o governo brasileiro "mantém o firme compromisso de continuar a preservar nosso patrimônio ambiental" e de "buscar o desenvolvimento sustent√°vel em sua plenitude, de forma a integrar a conserva√ß√£o ambiental à prosperidade econômica e social."

Ele defendeu o esfor√ßo dos países na redu√ß√£o das emiss√Ķes de carbono, que s√£o respons√°veis pelo processo de aquecimento global. E afirmou que o Brasil tem "a matriz energética mais limpa entre os países integrantes do G20" e responde hoje "por menos de 3% da emiss√£o de carbono" apesar de ser "uma das 10 maiores economias do mundo."

"O que apresento aqui s√£o fatos, e n√£o narrativas. S√£o dados concretos e n√£o frases demagógicas que rebaixam o debate público e, no limite, ferem a própria causa que fingem apoiar" - Jair Bolsonaro

Tasso Azevedo aponta que o percentual de 3% é um fato, mas ele isoladamente n√£o credencia o Brasil como um bom exemplo. O especialista aponta a compara√ß√£o da emiss√£o média per capita: a do mundo é de 7,1 toneladas de CO¬≤ e a do Brasil é de 10,4 toneladas de CO¬≤.

"Falar que a gente tem 3% das emiss√Ķes globais, embora seja uma das 10 maiores economias, n√£o quer dizer absolutamente nada. Basta pegar o tamanho do nosso PIB versus o PIB global, é muito menos do que 3%. (...) O que importa é a emiss√£o per capita - a emiss√£o per capita do Brasil é maior do que a do mundo. A gente ajuda a piorar a média do mundo, n√£o o contr√°rio." - Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas

No mais recente levantamento do Sistema de Estimativas de Emiss√Ķes de Gases de Efeito Estufa (SEEG), divulgado pela organiza√ß√£o n√£o-governamental Observatório do Clima (OC), foi verificado que as emiss√Ķes dos gases do efeito estufa no Brasil aumentaram 9,6% em 2019, em compara√ß√£o com 2018.

Emiss√Ķes de gases do efeito estufa sobem 9,6% em 2019 na compara√ß√£o com 2018, aponta Observatório do Clima

Agricultura e acordos comerciais

Bolsonaro também disse que, nos últimos 40 anos, o Brasil passou da condi√ß√£o de importador de alimentos para ser um dos maiores exportadores agrícolas do mundo.

"Esse processo de transforma√ß√£o da agricultura brasileira resulta de décadas de inova√ß√£o e desenvolvimento, incorporando grandes ganhos tecnológicos em eficiência e produtividade", afirmou.

Durante sua fala, Bolsonaro destacou os acordos comerciais firmados entre o Brasil e os EUA sobre facilita√ß√£o do comércio, boas pr√°ticas regulatórias e combate à corrup√ß√£o.

"Estamos construindo um país aberto para o mundo, disposto, n√£o apenas a buscar novos acordos comerciais, mas também a assumir novos e maiores compromissos nas √°reas do desenvolvimento e da sustentabilidade", disse.

Ao mesmo tempo em que o governo busca uma maior abertura econômica, com aumento no volume de comércio, ele afirmou estar ciente de que "os acordos comerciais sofrem cada vez mais influência da agenda ambiental".

Em junho, um grupo respons√°vel por investimentos de cerca de R$ 20 trilh√Ķes enviou uma carta aberta às embaixadas brasileiras de oito países. Eles se mostraram preocupados com o aumento do desmatamento no Brasil.

Nos últimos meses, na√ß√Ķes europeias, como a Fran√ßa, têm se manifestado contra o acordo comercial fechado com o Brasil. Em conjunto com outros países da Uni√£o Europeia, o país pretende impor condi√ß√Ķes ambientais para que as negocia√ß√Ķes prossigam.

Leia a íntegra do discurso

"Senhoras e Senhores,

Primeiramente, parabenizo a Ar√°bia Saudita por ter escolhido como tema central de sua presidência o lema "Realiza√ß√£o das Oportunidades do Século 21 para Todos".

Aproveito para também parabenizar os demais membros do G20 pelas oportunas iniciativas desenvolvidas ao longo do ano.

Além dos muitos instrumentos acordados, houve frutífera troca de experiências e dissemina√ß√£o de melhores pr√°ticas sobre diversos temas.

Destacamos o acesso universal à saúde, à educa√ß√£o e à economia digital, bem como a inclus√£o financeira de todos os cidad√£os.

Senhoras e Senhores,

O Brasil é um país resiliente. Queremos um futuro de desenvolvimento sustent√°vel e repleto de oportunidades para a nossa popula√ß√£o.

Meu governo tem promovido a abertura de nossa economia, com vistas a uma maior integra√ß√£o do Brasil aos fluxos de comércio e investimento mundiais.

S√£o demonstra√ß√Ķes do nosso empenho os acordos comerciais negociados pelo MERCOSUL com a Uni√£o Europeia e a Associa√ß√£o Europeia de Livre Comércio, a EFTA. Também j√° iniciamos tratativas com a Coreia do Sul e com o Canad√°.

Destaco, igualmente, os recentes acordos firmados entre o Brasil e os EUA sobre facilita√ß√£o do comércio, boas pr√°ticas regulatórias e combate à corrup√ß√£o.

Estamos construindo um país aberto para o mundo, disposto, n√£o apenas a buscar novos acordos comerciais, mas também a assumir novos e maiores compromissos nas √°reas do desenvolvimento e da sustentabilidade.

Ao mesmo tempo em que buscamos maior abertura econômica, estamos cientes de que os acordos comerciais sofrem cada vez mais influência da agenda ambiental.

Por isso, vamos à realidade dos fatos.

Nos últimos 40 anos, o Brasil passou da condi√ß√£o de importador de alimentos para o patamar de um dos maiores exportadores agrícolas do mundo.

Esse processo de transforma√ß√£o da agricultura brasileira resulta de décadas de inova√ß√£o e desenvolvimento, incorporando grandes ganhos tecnológicos em eficiência e produtividade.

Hoje, nosso País exporta volume imenso de produtos agrícolas e pecu√°rios sustent√°veis e de qualidade. Alimentamos quase um bilh√£o e meio de pessoas e garantimos a seguran√ßa alimentar de diversos países.

Ressalto que essa verdadeira revolu√ß√£o agrícola no Brasil foi realizada utilizando apenas 8% de nossas terras. Por isso, mais de 60% de nosso território ainda se encontra preservado com vegeta√ß√£o nativa.

Tenho orgulho de apresentar esses números e reafirmar que trabalharemos sempre para manter esse elevado nível de preserva√ß√£o, bem como para repelir ataques injustificados proferidos por na√ß√Ķes menos competitivas e menos sustent√°veis.

Durante os desafiadores meses da pandemia, nossa agropecu√°ria se manteve ativa e crescentemente produtiva. Honramos todos os nossos contratos.

Para promover o desenvolvimento sustentável, reconhecemos a contribuição do conceito de Economia Circular de Baixa Emissão de Carbono, baseada nos "4Rs": Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Remover.

Entendemos que esfor√ßo deve ser concentrado no primeiro "R", que é a "Redu√ß√£o" das emiss√Ķes de carbono. No cen√°rio mundial, somos respons√°veis por menos de 3% da emiss√£o de carbono, mesmo sendo uma das 10 maiores economias do mundo.

Por isso, também nesse aspecto, mais uma vez tenho orgulho de dizer que o Brasil possui a matriz energética mais limpa entre os países integrantes do G20.

Mantemos o firme compromisso de continuar a preservar nosso patrimônio ambiental.

Também mantemos a determina√ß√£o de buscar o desenvolvimento sustent√°vel em sua plenitude, de forma a integrar a conserva√ß√£o ambiental à prosperidade econômica e social.

O que apresento aqui s√£o fatos, e n√£o narrativas. S√£o dados concretos e n√£o frases demagógicas que rebaixam o debate público e, no limite, ferem a própria causa que fingem apoiar.

O hino nacional de meu país diz que o Brasil é gigante pela própria natureza. Estejam certos de que nada mudar√° isso. Vamos continuar protegendo nossa Amazônia, nosso Pantanal e todos os nossos biomas.

Contem com o meu país e com o meu povo para tornar o mundo realmente mais desenvolvido e mais sustent√°vel.

Muito obrigado."

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Fonte: G1

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